
Nair Benedicto, nascida em 1940 na capital paulista, é uma fotógrafa brasileira reconhecida por documentar e denunciar as desigualdades observadas nos diferentes contextos brasileiros.
Sua trajetória profissional está intimamente entrelaçada ao período da ditadura civil-militar brasileira, que a manteve em cárcere durante 9 longos meses em 1969. Formada em Jornalismo com ênfase em Rádio e Televisão pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo em 1972, Benedicto desejava trabalhar em seu campo de formação, porém, sua prisão no DOPS enquanto ainda era estudante impediu que seguisse na profissão, uma vez que as emissoras de televisão da época exigiam um atestado de boa conduta. Assim, a fotografia mostrou-se como uma alternativa para sua vida, pois permitiu que trabalhasse sem depender de vínculos empregatícios, com o que almejava: a imagem. Dessa forma, esse campo se tornou sua única fonte de renda com a qual trabalha até os dias atuais.
Em meio aos anos 1970 e 1980, o Brasil observava o surgimento de agências fotográficas e revistas semanais, que se desenhavam ao redor do movimento de profissionalização da fotografia. Nesse contexto, Benedicto começou a fornecer fotografias para jornais alternativos como o Movimento, fortemente censurado na época. Desenvolveu as produções audiovisuais “Não quero ser a próxima”, abordando a questão da violência contra a mulher, e “O prazer é nosso”, voltado para tratar da autonomia do corpo feminino, que tiveram grande repercussão e circulação. Além de projetos sobre as metas governamentais de desenvolvimento econômico na região da Amazônia. A fotografia de Nair Benedicto tem um cunho social forte, de forma que ela traz em seu trabalho denúncias sobre a realidade social do Brasil. Nesse ponto, é interessante ressaltar uma fala de Nair Benedicto em uma entrevista com a historiadora Erika Zerwes para o Instituto Moreira Salles, em que ela afirma:
“Tem gente que acha que sou politizada demais. Dizem que politizo tudo. Mas não sou eu que politizo, a vida que é politizada”.
Alinhado a isso, ela fundou em 1979 a Agência F4 de Fotojornalismo, junto com os fotógrafos Juca Martins, Delfim Martins e Ricardo Malta. Benedicto atuou na agência até 1991, fotografando para inúmeros canais de comunicação nacionais e internacionais, como Veja e Paris Match. No ano de sua saída da F4, a fotógrafa fundou a N-Imagens, um banco de imagens que tem contribuições de diversos profissionais – como Ricardo Malta e João Roberto Ripper -, além de ter participado ativamente de 1991 a 2011 do núcleo NAFOTO, voltado para eventos e debate sobre fotografia e responsável por organizar o Mês Internacional da Fotografia na capital paulista, trabalhando com fotógrafos como Juvenal Pereira, Stephania Bril e Isabel Amado.
Durante o período de redemocratização, Nair Benedicto dedicou-se também à fotografia das comunidades indígenas, apresentando as condições de vida, a cultura, os ritos religiosos e a presença desses povos nos diferentes espaços urbanos e rurais do país. Relatando também, as lutas por terras e expondo a atividade econômica extrativista e suas consequências para essas populações.
Recentemente, Nair Benedicto doou todo o seu acervo fotográfico para a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo, tornando o acesso às suas fotografias mais amplo e democrático. Apesar da imensa felicidade com a decisão de tornar coletiva essa sua memória fotográfica, Benedicto admitiu sentir um aperto no peito com a ação, pois aqueles eram 50 anos de sua vida.
Em 2024, Nair foi homenageada na 18° Mostra Anual de Fotojornalismo, evento organizado pela Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos no Estado de São Paulo (ARFOC-SP). Essa homenagem mostra a importância e o impacto dessa fotógrafa na imprensa brasileira, pois, segundo a vice-presidenta da ARFOC-SP Mônica Zarattini:
“Não eram meras imagens documentais… Nair nos ensina ao mesmo tempo pensar a fotografia com inteligência e comunicar pelo fotojornalismo com emoção e paixão”.
Mulheres no Sisal
A fotografia, produzida na Bahia em 1985, apresenta mulheres nordestinas trabalhando com grandes quantidades de sisal, sendo possível notar pelas posições curvadas e rostos cansados das trabalhadoras, o quão árduo era esse ofício. As cores e o jogo de luz presentes na fotografia constroem uma imagem que parece estar em movimento, com um cenário envolvente e quase divino.
Na década de 1980, a atividade sisaleira enfrentava um período de crise marcado pela queda do preço do produto no mercado internacional e pela queima dos sisalais. Além disso, por um lado, a crise intensificou a marginalização dos trabalhadores, que sofreram com drásticas reduções salariais e condições degradantes de trabalho, enquanto por outro houve a perpetuação do enriquecimento de uma pequena elite.
A beleza da visualidade produzida por Benedicto contrasta com a realidade do trabalho com o sisal, caracterizado por um ambiente insalubre, repleto de pó e trabalho pesado e em crise. Tal comparação induz a reflexão sobre como a fotografia pode apresentar um novo olhar sobre a realidade, transformando-a e revelando aspectos que se escondem por trás de outros. Nair Benedicto revela em Mulheres no Sisal uma outra perspectiva acerca do ofício e suas trabalhadoras, de forma a, até mesmo, valorizar essas mulheres que operam arduamente nessa atividade econômica. Valorização esta que era tão importante no tempo em que se situa a fotografia, e é essencial nos dias atuais.
Referências Bibliográficas
MULHERES no Sisal. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obras/97447-mulheres-no-sisal. Acesso em: 11/12/2025.
PROENÇA, Caio de Carvalho. Os “Índios molhados” de Nair Benedicto: fotografia documental, historicidade visual e lutas indígenas. Revista Sillogés, v.3, n.2, páginas 605-630, jul./dez. 2020. Disponível em: https://historiasocialecomparada.org/revistas/index.php/silloges/article/view/107. Acesso em: 10/12/2025.
LIMA, Solange Teixeira de.A fotografia de Nair Benedicto 1970 – 1985: do registro documental ao percurso poético. Guarulhos, 2019. Disponível em: https://repositorio.unifesp.br/items/12812cd1-1312-43a5-b103-be09027e9884, Acesso em: 10/12/2025.
SEVERO, Carolina Asti. Um olhar diferenciado à diferentes experiências de “ser mulher”: a questão do gênero no trabalho de Nair Benedicto. Livro Arte e Cultura visual no Brasil dos anos 1970 [recurso eletrônico], Porto Alegre, Editora Fi, páginas 35-57, 2020. Disponível em: https://www.precog.com.br/bc-texto/obras/2021pack0878.pdf. Acesso em: 10/12/2025.
DELGADO, Malu; BELTRÃO, Lela. Nair Benedicto, a fotógrafa-onça que se move pelo desejo da mudança. SUMAÚMA, São Paulo, 20 fev. 2025. Disponível em: https://sumauma.com/nair-benedicto-a-fotografa-onca-que-se-move-pelo-desejo-da-mudanca/. Acesso em: 10/03/2026.
ZARATTINI, Mônica. Muito à frente do seu tempo. ARFOC-SP, São Paulo, 2024. Disponível em: https://arfocsp.org.br/nair-benedicto/. Acesso em: 10/03/2026.
JUNIOR, Rubens Fernandes. VI VER, uma história essencial – Fotografias de Nair Benedicto. Iconica, 05 nov. 2012. Disponível em: https://www.iconica.com.br/site/vi-ver-uma-historia-essencial-fotografias-de-nair-benedicto/. Acesso em: 10/03/2026
ZERWES, Erika; BENEDICTO, Nair. Sobre mulheres e fotografia: uma conversa com Nair Benedicto. Instituto Moreira Salles Revista de Fotografia, 09 out. 2018. Disponível em: https://revistazum.com.br/entrevistas/conversa-nair-benedicto/. Acesso em: 10/03/2026.