João Roberto Ripper, nascido em 6 de maio de 1953, é um fotodocumentarista carioca que explora olhares diferenciados direcionados aos grupos marginalizados através de suas lentes. Sendo referência nacional no cenário fotográfico, destaca-se o Movimento do Bem-querer que ele iniciou, estimulando uma nova forma de se pensar a fotografia.
Para compreender esse movimento, é necessário contextualizar o desenvolvimento da fotografia de Ripper. Em mais de 50 anos de profissão, entre seus feitos, ele atuou em agências fotográficas e realizou reportagens fotográficas para os jornais Luta Democrática, Diário de Notícias, Última Hora e O Globo. Para além do ofício prático, a sua experiência de vida juntamente com a exposição de diferentes realidades, através de suas câmeras, colaborou para a construção de um senso crítico politizado em relação ao ato de fotografar, reconhecendo a ausência da imparcialidade nisso. Nesse sentido, ele participou da Agência F4 – cooperativa de fotógrafos independentes – após colaborar com o movimento de profissionalização dos fotógrafos e ter coordenado a luta pelo reconhecimento dos direitos autorais das fotografias, além de fundar a cooperativa Imagens da Terra – alinhada a movimentos populares – e o Imagens Humanas – acervo digital de sua obra fotográfica.
Em sequência, Ripper aproveitou a oportunidade de participar da produção de ilustrações de um livro, a convite do Observatório de Favelas, localizado no complexo de favelas da Maré, para propor um novo olhar para as fotografias da comunidade. Assim, em seus desdobramentos, a proposta resultou no desenvolvimento da Escola de Fotógrafos Populares, que tinha o objetivo de formar fotógrafos que registrassem a realidade das favelas através de uma perspectiva humanizada e pertencente à comunidade local para que, consequentemente, o papel de documentar essas populações representasse uma ruptura aos estereótipos de violência e de generalização propagados pela mídia dominante.
Pedagogia do Bem-querer
Esse era o início da disseminação de uma nova forma de criar registros fotográficos, que se tornaria a base para a Pedagogia do Bem-querer guiada por Ripper. Além do olhar de pertencimento e de identificação que as fotografias deveriam proporcionar à comunidade fotografada, seja nas favelas, populações indígenas ou ribeirinhas e quaisquer outros grupos marginalizados, essa pedagogia também defende que elas deveriam ser focadas em apresentar a beleza da vivência dessas pessoas – aquilo que é propositalmente ocultado. Com isso, o trabalho do fotógrafo de disponibilizar o acesso às particularidades e aos costumes de cada população e localidade aproxima o expectador daqueles que foram fotografados, documentando momentos e tradições culturais para posteridade que provavelmente seriam desconhecidos pela História propagada entre o restante da sociedade. Essa maneira de praticar a fotografia rompe com o discurso da histórica única – conceito criticado pela escritora nigeriana — Chimamanda Adichie (2019), fugindo da imagem construída pelos veículos midiáticos e, por consequência, do imaginário coletivo, o que leva a construção de um novo olhar para as populações periféricas.
A partir disso, perspectivas estereotipadas dão espaço para o cotidiano e a cultura singular que cada comunidade possui. As lentes deixem de focar na falta para destacar a beleza nas pequenas coisas. Seguindo essa filosofia, Ripper entendia a importância de transmitir os seus conhecimentos e, principalmente, estimular que o campo da fotografia aplicasse efetivamente os direitos humanos em suas obras por meio dessa nova forma de se pensar a escolha do que registrar, o que refletiu no desenvolvimento da Escola de Fotógrafos Populares e das oficinas da Fotografia do Bem-querer, além de inspirar outros fotógrafos nacionais através do seu trabalho.

Nessa foto, registrada durante uma entrevista com João Ripper feita pelo Dante Gastaldoni para o Imagens Humanas, é possível observar o afeto e o cuidado do fotógrafo ao fotografar uma criança indígena em seu ambiente de convívio. Nesse sentido, para contar a história dele a partir de uma perspectiva contrária ao que era praticado, Ripper se aproxima do cotidiano de quem deseja fotografar. Ele buscar conhecer os pequenos detalhes que tornam a experiência de vida desses povos tão bela, aquilo que os comove, para entender qual a melhor forma de documentar. Dessa forma, essa imagem é um recorte de como a pedagogia do Bem-querer se expressa no trabalho de fotodocumentarista de Ripper e de como o seu acervo auxilia o desenvolvimento de um novo olhar para os grupos marginalizados, que é algo que ele se esforça para que se propague na área fotográfica.
Assim, fundamentado nessa pedagogia, surgiu o Movimento do Bem-querer, que consiste na propagação dessa nova forma de se pensar a fotografia. Esse movimento que preza pela valorização dos verdadeiros protagonistas daquilo que é exposto permite que eles tenham a oportunidade de contar a própria história após tanto tempo silenciados, demonstrando sua importância para a construção da história e da memória coletiva do povo brasileiro – que é tão único e diverso. Desse modo, nas palavras de Ripper, “O fotógrafo é aquele que aprende e reconhece valores em quem fotografa, e transmite isso”.
Referências
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
ATELIÊ DA IMAGEM. João Roberto Ripper. Disponível em: https://www.ateliedaimagem.com.br/docente/joao-roberto-ripper/
GASTALDONI, Dante; RIPPER, João Roberto. Leia a entrevista com o fotógrafo João Roberto Ripper, 2010. Disponível em: https://imafotogaleria.wordpress.com/2010/07/23/leia-a-entrevista-com-o-fotografo-joao-roberto-ripper/
GONÇALO COELHO, Thaianne. A dimensão humana e a ética do bem-querer
nas fotografias de João Roberto Ripper, 2014.
TEMIDO, Giovanna. Bem-querer: um olhar humanizado na fotografia brasileira a partir da obra de João Roberto Ripper. Revista Miguel, n.7, jul/ dez 2022.