O encontro desenvolvido na mesa “Memórias e arquivos fotográficos: políticas dos olhares e lutas sociais na diáspora negra” reuniu um público entre estudantes de graduação e pós-graduação e interessados sobre o tema no PPGMS (Programa de Pós-graduação em Memória Social) na UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de janeiro) no dia 13 de março de 2026. O propósito da conversa sobre memória, arquivos e diáspora negra foi debater a importância das imagens fotográficas e documentos para a preservação da memória e experiências da população negra ao longo do tempo e em diferentes territórios. Organizada e mediada pelo pesquisador da História Oral e Visualidades Urbanas Samuel Oliveira, que também faz parte do corpo docente do (CEFET)/ (PPGMS), e é integrante do INCT Antirracismo – núcleo CEFET-RJ , na ação Griots do século XXI.
Iniciando com a apresentação da Janaína Damasceno, que é doutora em Antropologia (USP), professora de Educação na Baixada Fluminense (UERJ) em Duque de Caxias, e uma das criadoras do FICINE – Fórum Itinerante do Cinema Negro. Nesta sessão a pesquisadora articulou o seu conhecimento no campo fotográfico, explicando que tem se debruçado nos últimos anos na pesquisa de trabalhos –“sobre fotógrafos negros que representam as vidas negras através da fotografia”. .Janaína Damasceno foi a curadora das exposições “Walter Firmo – no verbo do silêncio a síntese do grito” (2022), e “Gordon Parks – A América sou eu” (2025-2026) ambos para o Instituto Moreira Salles (IMS). Atuou na pesquisa da fotografia de Lita Cerqueira, para exposição “O Povo Negro é o Meu Povo” 50 anos de fotografia da artista, na Caixa Cultural em Salvador (2024), estes que, proporcionaram um senso distinto de compreensão para a reflexão científica. Com voz desenvolta e fala acessível manifestou a sua visão na pesquisa no início da sua narração:
“Uma das coisas que para mim é importante pensar entre pesquisa e fotografia, é como a gente consegue fazer com que as nossas pesquisas dentro da universidade alcancem o maior número de pessoas possíveis. Sempre tive uma preocupação de como a gente faz divulgação científica”.

Samuel Oliveira, Marcus Vinícius de Oliveira e Janaína Damaceno. Unirio. Mar/2026
E neste direcionamento, a intelectual das visualidades negras explicou que em seus trabalhos com exposições entendeu que, é possível realizar projetos com propriedade e refletir a exposição como um espaço de diálogo entre as nossas pesquisas e o público diverso. Em sequência apresentou as últimas exposições que esteve envolvida, passando os livros entre os participantes. Na trama narrada entre fotografia, vivências negras e interpretações das linguagens exibiu imagens significativas do legado fotográfico do Gordon Parks — fotógrafo, diretor e ativista afro-americano — fazendo uma leitura reflexiva das produções e guiando os participantes para uma conversa entre arte, fotografia, arquivos, memória e experiência. Com o foco centralizado nas trajetórias/vidas negras, e os atravessamentos sociais e políticos de cada registro exibido em seu contexto temporal.
Em seguida, foi a vez do Marcus Vinícius de Oliveira, professor de História (IFRJ) e Doutor em História (UFF). Autor do livro “À sombra do colonialismo: fotografia, circulação e projeto colonial português (1930-1951)”, o pesquisador tem uma longa investigação sobre a relação entre arquivos fotográficos e o processo de colonização e descolonização da África. No desenvolvimento de sua palestra, expôs a localização da fotografia no contexto colonial português, ilustrando as interpretações dos registros fotográficos e documentos que foram reunidos como um acervo de memória em exibição. Por intermédio da sua pesquisa interrogou a finalidade da circulação destes arquivos, e a própria transitoriedade material da fotografia. Segundo Marcus Vinícius de Oliveira, “a gente não problematiza que a fotografia não nasce como documento de arquivo, ela chega em algum momento” – esse ato de arquivar a fotografia denota operações de poder e memória.
O pesquisador relatou os passos da pesquisa com as fotografias/arquivos no período do salazarismo português para compreender as singularidades naquele período político e social. Apresentou algumas fotografias erguendo reflexões críticas para os participantes e para situar o seu ponto de vista disse, “essa resiliência que fui trabalhando, foi pensando justamente em como essas imagens foram sendo deslocadas por um dispositivo que vai armazenar e enquadrar as imagens dentro dos objetivos do poder colonial”. Sua pesquisa movimenta o pensamento para a reflexão sobre o papel da fotografia no enquadramento da memória, as ambivalências dos arquivos e as disputas de narrativas na localização colonial conectada à diáspora africana. Entre as trocas que transitaram nesta conversa, os pesquisadores mostraram como as imagens tecem as sociabilidades negras. E a pesquisadora/curadora Janaína Damaceno concluiu:
“Eu tenho pensado na produção de fotógrafos/as negras nos últimos anos, e para mim uma das questões dessa educação antirracista e imagem, é o fato da gente se constituir enquanto sujeito político através da imagem”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BURGI, Sérgio (org). Walter Firmo: No Verbo do Silêncio a Síntese do Grito. Edição Português. Editora IMS. 2022.
CAIXA CULTURAL. O Povo Negro é o Meu Povo – Lita Cerqueira 50 anos de Fotografia. Salvador. 2024. Disponível em: Programação | CAIXA Cultural
DAMACENO, Janaína. Memórias da Infância na fotografia e no cinena de Gordon Parks. In: Semana de Acolhimento PPGMS, Mesa: Memórias e arquivos fotográficos: políticas do olhar e lutas sociais na diáspora negra. Rio de Janeiro, UNIRIO. 2026.
DE OLIVEIRA, Marcus Vinicius. As resiliências e ambivalências da fotografia no contexto colonial. In: Semana de Acolhimento PPGMS, Mesa: Memórias e arquivos fotográficos: políticas do olhar e lutas sociais na diáspora negra. Rio de Janeiro, UNIRIO. 2026.
DE OLIVEIRA, Marcus Vinicius. À sombra do colonialismo: fotografia, circulação e projeto colonial português (1930-1951). 1² edição. Rio de Janeiro: Editora Letra e Voz. 2021.
INSTITUTO MOREIRA SALLES (IMS). Gordon Parks – A América sou eu. São Paulo. 2025/2026. Disponível em: Gordon Parks – A América sou eu – Instituto Moreira Salles