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Tina Modotti e a Fotografia Obrera

Figura 1: Retrato de Tina Modotti

Assunta Adelaide Luigia Modotti Mondini, mundialmente conhecida como Tina Modotti, nasceu na cidade de Udine, na Itália, em 17 de agosto de 1896. 

Sendo filha de uma família de operários, trabalhou desde cedo com sua mãe, Assunta Mondini, como costureira em uma fábrica, enquanto seu pai, Giuseppe Modotti, trabalhou como fabricante de bicicletas de bambu. Em busca de melhores condições de vida, imigraram para a Áustria e, depois, para os Estados Unidos. 

Fotógrafa, modelo, atriz e ativista política revolucionária, Tina se aproximou do movimento social operário bem cedo, pela figura de seu padrinho Demétrio Canal, integrante do círculo socialista de Udine, e seu pai, socialista e grande defensor de causas sindicais. 

Somente quando se relacionou com o fotógrafo Edward Weston e decidiu se mudar para o México que se dedicou às técnicas de fotografia e iniciou sua carreira nesta área. Envolvida com a vida mexicana, desenvolveu sua criatividade artística e se conectou com diversos artistas socialistas, como o pintor muralista Diego Rivera. 

Diferente de Weston, a fotógrafa saiu pelas ruas, vivenciou as manifestações, fotografou as festas populares e se conectou com italianos exilados, aproximando sua arte de sua história. Separada do fotógrafo, se filiou ao Partido Comunista Mexicano e lutou contra as ditaduras nos países latino-americanos e o fascismo nos países europeus. 

Tina Modotti percebeu que sua linguagem fotográfica poderia ser instrumento de denúncia e, sem abandonar o sentido estético da fotografia, produziu trabalhos de grande valor ideológico. Mesmo envolvida com a fotografia por poucos anos, pode construir obras simbólicas conectadas aos movimentos campesinos e à efervescente cultura e arte mexicana, formando sua identidade enquanto fotógrafa obrera

“Un mundo marcha al sitio 
donde tú ibas, hermana,
avanza cada día 
los cantos de tu boca
en la boca del pueblo glorioso 
que tú amabas.
Tu corazón era valiente.”

Tina Modotti ha muerto, Pablo Neruda

A Fotografia Obrera 

Kassák descreve a figura do fotógrafo obrero como “o pioneiro entre os trabalhadores, ou à sua frente, com uma câmera e através da lente, deseja apresentar o mundo ao nosso redor de uma forma mais reconhecível e compreensível. Naturalmente, o fotógrafo operário só pode cumprir essa missão compreendendo plenamente as capacidades do aparato mecânico, manuseando-o profissionalmente, sem depender do acaso, capturando os objetos a partir de uma perspectiva socialista e treinando-os conscientemente em fotografia. em outras palavras, conhecendo o quê, o como e o porquê do seu trabalho”. 

Neste caminho, as fotografias de Tina são imagens simbólicas. Ao invés de dar nomes e rostos às suas imagens, a fotógrafa escolhe focar seus registros em mãos ou corpos sem rosto, abstraindo-se do indivíduo e atingindo um sentido coletivo, em que o elemento humano é demonstrado sem um caráter identificável. Essas obras se enquadram na categoria de expressão social. 

A temática escolhida por Modotti se associa a imagens políticas que se preocupam com a desvalorização do esforço laboral e da existência feminina.  Afinal, a maioria de suas fotos esteve ligada a questões de gênero e problemas sociais da classe trabalhadora, como as fotografias Manos sosteniendo una pala e Manos de mujer lavando ropa.  

O contexto dessas fotos não poderia ter sido outro. Diante do período entreguerras, entre os anos de 1926 e 1936, houve o ápice dos movimentos revolucionários esquerdistas europeus, junto ao crescimento expressivo da imprensa ilustrada, que se conectou à estética fotográfica e a cultura visual que colaborou para o fortalecimento do registro documental e da reportagem fotográfica. 

O gênero documental que combina tão bem com o trabalho de Tina se baseia na valorização e visibilidade das classes populares emergentes na era da democracia de massas, que permitiu à fotografia obrera aprimorar as vanguardas artísticas das décadas de 1920-30 com demandas sociais e laborais. 

Vale ressaltar que a fotografia obrera se desenvolveu em diferentes nacionalidades e culturas, atingiu um alcance internacional influenciada pelo intercâmbio entre os indivíduos, o trânsito destes entre os diversos países e as preocupações pessoais dos fotógrafos. As obras de Modotti não seriam diferentes.    

Afinal, por meio dessas fotografias deve ser possível identificar os discursos e ouvir suas mensagens, que elaboram uma visão humanista e socialmente engajada, que abrem o horizonte e modificam o mundo, transformando e disseminando ideias capazes de mobilizar as massas e unir as pessoas como um povo, influenciando a história por meio da informação fotográfica. E isto só seria possível, a partir de um olhar esclarecido que, envolvido com a militância e a luta socialista, pode reconhecer a condição do homem, a luta de classes e os direitos dos trabalhadores. 

A Arte e a Luta das Classes Operárias 

Figura 2: Tina Modotti. Campesinos, 1926. 

A fotografia Campesinos foi registrada em uma manifestação no Primeiro de Maio de 1926 no México, quando é celebrado o Dia Internacional do Trabalho, sendo um marco emblemático do envolvimento da fotógrafa na política revolucionária da época naquele país. 

Uma das coisas mais impressionantes nesta fotografia é que ela representa um estático enquanto transmite um movimento. Apesar de ser apenas uma foto, é possível escutar a voz do povo, ouvir seus passos, visualizar seu caminho e identificar o que os une. O mar infinito de chapéus demonstra a organização e a união dessas pessoas. São um corpo só. 

Sendo uma imagem em tons de cinza, em que o destaque se sobressai no uso do branco encontrado nos chapéus, como pontos de luz. O povo é o objeto central da obra. O povo também é o objeto central desta data. Composto pelos trabalhadores mexicanos que celebram as contribuições da classe trabalhadora e homenageiam a luta histórica por direitos trabalhistas. 

Este trabalho de Modotti representa bem suas crenças políticas envolvidas com suas impressões fotográficas. Afinal, sua carreira neste campo foi simbólica para a formação do acervo de fotografias obreras, levando-se em consideração que, apesar de existir uma preocupação com a beleza e a estética de suas fotografias, houve a predominância por suas militâncias sociais, feministas, trabalhistas e comunistas.  

Afinal, a fotografia também pode ser denunciante, documental, histórica e militante. Assim como a pintura. 

Figura 3:Tarsila do Amaral. Operários, 1933.

Tarcila do Amaral pintou a obra que representa o modernismo brasileiro por meio dos operários industriais. A tela Operários é um símbolo para denunciar a exploração do povo trabalhador e a diversidade étnica que compõe a sociedade brasileira por meio dos 51 rostos registrados em pintura a óleo na frente de uma fábrica.  

Tina Modotti fotografou a obra que representa o modernismo mexicano também através dos operários. A fotografia Campesinos também expõe a massificação do trabalho e o abuso sofrido pelos trabalhadores. Essas obras se conectam. Embora a disposição dos indivíduos seja contrastante, visto que a fotógrafa escolheu não registrar seus rostos, criando uma imagem de cima, que revela somente os chapéus e seus corpos em movimento; ambas carregam a dimensão de um único povo. 

Assim, pela própria historicidade e engajamento comunista das artistas, torna-se evidente que suas obras detém um caráter deliberadamente propositivo que mobiliza a dimensão sensível da arte como instrumento de ação política. Afinal, ambas as artes contam com suas experiências humanas, refletem o que estava acontecendo naquela época culturalmente e falam pelas artistas. 

Referências Bibliográficas

Aidar, L; Fucks, R. Quadro Operários de Tarsila do Amaral: significado e contexto histórico. Cultura Genial. Disponível em: https://www.culturagenial.com/quadro-operarios-de-tarsila-do-amaral/#google_vignette Acesso em: 28 jan. 2026.

Batista, A. F; Martins-Fontes, Y. O marxismo de Tina Modotti. Revista Fórum. Disponível em: https://revistaforum.com.br/blogs/o-marxismo-de-tina-modotti/ Acesso em: 28 jan. 2026.

Neruda, P. Tina Modotti ha muerto. Revista Caliban. Disponível em: https://revistacaliban.net/tina-modotti-ha-muerto-8d9422a79a6d Acesso em: 24 jan. 2026. 

Santos. M; Temer. A. C. R. P. Mulheres no jornalismo: práticas profissionais e emancipação social. Tina Modotti, um olhar sobre a história. 95-106 fl. Editora Cásper Líbero. UFG/FIC. 1 ed. São Paulo, 2018. Disponível em: https://static.casperlibero.edu.br/uploads/2018/11/Mulheres-no-jornalismo.pdf#page=95 Acesso em: 23 jan. 2026.

Zerwes, E. Tina Modotti e Kati Horna, fotógrafas produtoras de duas imagens situadas entre a fotografia obrera e o humanismo. História Unisinos. Maio/Agosto 2016. Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Brasil. 14f. Disponível em: https://www.redalyc.org/journal/5798/579862722010/579862722010.pdf Acesso em: 29 jan. 2026.