
Nascido no Rio de Janeiro e morador do Complexo da Maré, Veridomar da Glória se apresenta ao mundo através da fotografia como veri-vg.
Veri-Vg se aproximou nos anos 2000 do Hip-Hop e dos movimentos sociais da Maré. No Observatório de Favelas, estudou na Escola Popular de Comunicação Crítica (ESPOCC), no núcleo de Jornalismo Impresso, até se interessar pela Escola de Fotografia Popular, onde se formou posteriormente, fazendo parte do acervo do Imagens do Povo.
Foi assim que veri-vg encontrou na fotografia, em um primeiro momento, uma oportunidade de trabalho e depois, a chance de se profissionalizar. Sua paixão pelas fotos ocorreu muito cedo, dentro de casa, acompanhado de sua mãe, ao olhar e conversar sobre os álbuns de família. Já seu primeiro contato com uma máquina fotográfica foi emprestado, na ESPOCC, onde pôde fotografar com uma câmera analógica pela primeira vez.
Sua conexão preliminar com a fotografia é marcada por uma memória remota de quando morava em Olaria e realizava foto colagens, em que manusear fotografias, recortá-las e brincar com gêneros era muito divertido, mas também muito esclarecedor. O fotógrafo veri-vg associa esse passado a um processo muito bonito de autoconhecimento e revela que, sua fotografia não é autocentrada, mas uma possibilidade de contribuir com os outros.
Veri-vg em entrevista revelou que “é a própria fotografia popular, por conta do compartilhamento, por conta do meu próprio espaço e por poder me aproximar de outros espaços que são iguais aos meus espaços, que a gente vai pegando esse contato”.
O Piscinão
O Parque Ambiental da Praia de Ramos Carlos Roberto de Oliveira Dicró, conhecido como Piscinão de Ramos, é um importante marco de lazer e convivência no bairro da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O projeto foi desenvolvido e inaugurado no governo de Anthony Garotinho, em parceria com a Petrobrás, entre 2000 e 2001 e se trata de uma praia artificial de areias de tombo em torno de uma piscina pública de água salgada, captada da Baía de Guanabara e, posteriormente, tratada e bombeada para a praia.
Esse espaço foi construído como uma possibilidade de lazer para a população da Zona Norte, constantemente negligenciada e prejudicada pela logística de interesse e investimento do poder público, se tornando um símbolo de diversão acessível para moradores de diferentes bairros desta região. No entanto, esse espaço público foi e permanece sendo visualizado e interpretado de múltiplas formas, desde um parque interativo a um ambiente inóspito, dependendo de quem o registra.
Veri-vg acompanhou e documentou o Piscinão de Ramos. Acompanhar a obra de mudança, de construção do espaço do Piscinão, despertou algo nele o interesse para documentar esse lugar. Além disso, veri-vg complementa que suas referências fotográficas partem muito do seu interior, despertadas pela fotografia popular e influenciadas pelo espaço em que convive e pelos pensamentos semelhantes das pessoas com que se relaciona.
De acordo com Boris Kossoy, a imagem fotográfica tem múltiplas faces e realidades. Vale acrescentar que, as fotografias simbolizam trocas e relações, que estão sempre envolvidas dentro de vários contextos e que representam mais do que superficialmente parecem dizer. É possível visualizar esses pontos ao se encontrar com as fotografias de veri-vg.
É perceptível em sua fotografia que o envolvimento do fotógrafo com o referido local corresponde a uma intensa troca entre o ambiente e a sua identidade, que possibilitou veri-vg amar e respeitar o Piscinão, assim como construir uma visualidade dessa praia como um espaço plural de beleza e lazer. Para Andrea Barbosa, quando se fotografa um espaço vivido, a fotografia pode também agir produzindo um lugar.
Por meio da série de fotos que veri produziu do Piscinão de Ramos, produziu-se no imaginário das pessoas que conheceram esse espaço por suas fotos, uma visão de encanto e diversão que foge da imagética construída por reportagens jornalísticas de pobreza e escassez da Maré e sujeira do Piscinão.


As duas imagens são do mesmo lugar. A forma como a fotografia pode conquistar ou afastar o público está sendo manifestada por esses registros. Afinal, o desejo ou a repulsa são construídos por meio de elementos que passam da iluminação e englobam os objetos fotografados. Ambas as fotografias representam o Piscinão de Ramos, mas também não o delimitam.
O trabalho realizado por quem fotografa incorpora sua intenção na fotografia. A escolha de iluminação e ângulo ou contraste e brilho é arbitrária e intencional. Existem mensagens sendo compartilhadas com o público quando a fotografia revelada utiliza muitas cores ou restringe-se ao preto e branco. Da mesma forma, o tratamento de edição das fotos também divide com o público a forma como esse fotógrafo entende e visualiza o que está sendo fotografado.
Essas fotografias compartilham sua interatividade com quem a vê. Constrói-se uma sensação de pertencimento ao espaço em ambas as fotografias em que você sente a areia no pé e escuta o barulho do ambiente. No entanto, são sensações diferentes.
Na primeira fotografia, sente-se o calor do sol no corpo. A areia entre os dedos está quente. A água parece tranquila. O barulho do ambiente é do movimento das pessoas nadando na água. Parece atraente. Já na segunda fotografia, experimenta-se o frio. O sol já se pôs, o crepúsculo apresenta um tempo gélido. A água parece suja. O barulho do ambiente é do tumulto da multidão na água. Parece sufocante. Talvez por isso, enquanto uma dessas fotografias foi utilizada como capa de livro, outra foi selecionada para estampar uma reportagem no jornal.
Ainda assim, o Piscinão é e ao mesmo tempo escapa, a tudo o que essas imagens tentam capturar. Esses registros foram produzidos nesse ambiente e ainda que guardem apenas seus fragmentos, é nesses fragmentos que se revela o que esse espaço público de lazer pode significar. No entanto, também relevam olhares que ardem visões pessoais sobre esse cenário vasto e aberto a todos, que não se limita a existir diante de nós: ele atrai. E, mais do que isso, ele convida cada um a se aproximar, a se entregar, a sonhar e a construir, com as próprias mãos e o próprio olhar, tudo aquilo que o Piscinão pode ser.
Em 2012, no livro Imagens do Povo, a fotografia de veri-vg foi escolhida para abrir a capa do mesmo. A documentação que o mesmo realiza é rica em vários aspectos do lazer e beleza da Maré.
Referências Bibliográficas
Barbosa, Andrea (et al.). A experiência da imagem na etnografia. São Paulo: Terceiro Nome, 191-204, 2016. Disponível em: https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=zFpSEQAAQBAJ&oi=fnd&pg=PA191&dq=info:fSc6hVQk9usJ:scholar.google.com/&ots=9mk074GMVy&sig=CC2jIz7y8_vUyCIrzfHvqAGZh3o&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false Acesso em: 20 jul. 2026.
Bittencourt, Julio. Álbum Ramos. Uol. Disponível em: https://entretenimento.uol.com.br/album/Julio_Bittencourt_Ramos_album.htm?imagem=5 Acesso em: 20 jul. 2026.
Bittencourt, Julio. Disponível em: https://www.juliobittencourt.com/ramos Acesso em: 20 jul. 2026.
Imagens do Piscinão de Ramos ao longo de seus dez anos de funcionamento. Disponível em: https://extra.globo.com/noticias/rio/veja-imagens-do-piscinao-de-ramos-ao-longo-de-seus-dez-anos-de-funcionamento-3418804.html Acesso em: 20 jul. 2026.
Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/verivg/ Acesso em: 20 jul. 2026.
Kossoy, Boris. Fotografia e História. Ateliê Editorial, São Paulo, 2 ed, 2001. Disponível em: https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=lZ83IeRyy1oC&oi=fnd&pg=PA15&dq=info:GA94CWoXPhUJ:scholar.google.com/&ots=sG0xVCrk97&sig=zlTJq6v9cEDb_hhj9YWNTvapI9c&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false Acesso em: 20 jul. 2026.
Mostra Cultura na Periferia: como vamos? Disponível em: https://verivg.alboompro.com/portfolio/edital/1021809-mostra-cultura-na-periferia-como-vamos Acesso em: 20 jul. 2026.
Piscinão de Ramos. Wikipedia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Piscinão_de_Ramos Acesso em: 20 jul. 2026.
Piscinão de Ramos. Rio Memórias. Disponível em: https://riomemorias.com.br/memoria/piscinao-de-ramos/ Acesso em: 20 jul. 2026.