A fotografia é uma das formas mais importantes de registro para o ser humano. E através do registro fotográfico, as pessoas, os acontecimentos cotidianos/históricos e memórias, podem atravessar gerações, e perpetuar passagens que poderiam ser esquecidas. Mais do que registrar o presente, a fotografia possibilita uma relação entre passado e futuro, sendo um instrumento de construção da memória individual e coletiva.
Nesse contexto, a obra da artista Rosana Paulino se destaca por utilizar também fotografias como meio de reflexão sobre memória, identidade e história. Nascida em São Paulo, em 1967, Rosana é artista visual, pesquisadora e uma relevante referência da arte contemporânea brasileira. E como primeira mulher negra a obter o título de doutora em Artes pela Universidade de São Paulo (USP), a sua produção como artista fala principalmente, na condição da população negra brasileira, com atenção voltada às experiências das mulheres negras ao longo da história. Em muitas de suas obras, Rosana Paulino recupera e reelabora fotos antigas por meio de intervenções como: costuras, bordados, desenhos, montagens, entre outras recriações. Esses elementos não aparecem apenas simplesmente como estética, mas também, como forma de questionar os processos de silenciamento e invisibilidade que marcaram a vida de inúmeras mulheres negras. Ao intervir em fotografias já produzidas, a artista ressignifica imagens que, durante muito tempo, foram produzidas sem considerar a individualidade das pessoas retratadas.
Um de seus trabalhos mais conhecidos é Assentamento (2013). A obra utiliza três fotografias de uma mulher negra escravizada, originalmente produzidas no século XIX para estudos de caráter científico, na época. A artista recorta, amplia e costura ordenadamente essas imagens, adicionando desenhos e bordados. A imagem fragmentada nos fala sobre as marcas causadas escravidão, e cada um dos desenhos bordados falam sobre a reconstrução de histórias que foram interrompidas ou apagadas. O coração costurado fala diretamente sobre a humanidade desta mulher que foi desconsiderada na época, assim como as raízes no lugar dos seus pés representam pertencimento e permanência.

Através das intervenções artísticas nas fotografias, Rosana Paulino restitui o protagonismo e humanidade que antes fora retirado desta mulher.
Outro trabalho muito marcante é Bastidores (1997), composto por fotografias de mulheres negras da família da artista. Nessas imagens, bocas, olhos e gargantas estão costurados com linhas escuras e grossas. A intervenção simboliza o silenciamento imposto às mulheres negras, que tiveram experiências e narrativas silenciadas por muitos anos dos registros oficiais. Ao mesmo tempo, a obra nos mostra a resistência dessas mulheres diante às opressões, evidenciando o que esteve/permanece submerso ao longo do tempo, e pode ser reelaborado criticamente por meio das suas criações.

As linhas que atravessam os rostos simbolizam e denunciam o silenciamento imposto às mulheres negras.
Aquilo que Rosana Paulino produz, se relaciona diretamente às discussões sobre a presença das mulheres na fotografia. Durante grande parte da história da fotografia, as mulheres aparecem de forma limitada nos registros fotográficos, geralmente representadas no ponto de vista masculino ou ocupando posições secundárias. E com as mulheres negras, essa invisibilidade foi muito mais intensa, pois além do sexismo, havia também o racismo. Como apontam estudos de pesquisadoras como Érika Zerwes (2021), podemos observar nas fotografias mulheres sendo excluídas, deixando de registrar ou valorizar suas experiências.
Quando Rosana Paulino escolhe recuperar imagens esquecidas e dar novos sentidos a elas, ela contribui para a construção de uma memória muito mais plural, e certamente, mais inclusiva. Suas obras são instrumentos de denúncia de apagamentos históricos, e ao mesmo tempo, reafirmam a importância das mulheres negras como protagonistas de suas próprias histórias. Nesse sentido, entre algumas reflexões, seu trabalho demonstra como a fotografia vai além da função do simples registro visual, e muitas vezes torna-se um instrumento de memória, resistência e ressignificação de experiências que foram apagadas da memória social coletiva.
Referências
- PAULINO, Rosana. Entrevista com Rosana Paulino. Entrevista concedida à Pinacoteca do Ceará. Fortaleza: Pinacoteca do Ceará, 2021. Vídeo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pchHaVhRwQk. Acesso em: 28 mai. 2026.
- PAULINO, Rosana. Obra, pesquisa e ensino. Aula aberta realizada pela Pinacoteca do Ceará. Fortaleza: Pinacoteca do Ceará, 2021. Vídeo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4kYLy2hP_xE. Acesso em: 28 mai. 2026.
- PINACOTECA DE SÃO PAULO. Rosana Paulino: a costura da memória. São Paulo, 2018. Disponível em: https://pinacoteca.org.br/programacao/exposicoes/rosana-paulino-a-costura-da-memoria/. Acesso em: 1 jun. 2026.
- TVARDOVSKAS, Luana Saturnino. Imagens de sobrevivência: feminismos e arquivo fotográfico em Rosana Paulino e Rosângela Rennó. In: ZERWES, Erika; COSTA, Helouise (org.). Mulheres fotógrafas, mulheres fotografadas: fotografia e gênero na América Latina. São Paulo: Intermeios, 2021.