Quem é Lita?
Lita Cerqueira é uma fotógrafa baiana nascida em Salvador (1952), sendo considerada a primeira mulher negra e brasileira a atuar profissionalmente no campo da fotografia. Sua obra contrapõe a tradição de fotografia documental distanciada e tradicional, em favor de uma estética de diversidade e de pertencimento. O trabalho da Lita na fotografia é reconhecido por representar de forma humanista a cultura e a dignidade do povo negro brasileiro, ganhando destaque pela sua fidelidade ao processo fotográfico analógico com negativos em preto e branco, suportes que a artista defende como a verdadeira linguagem da fotografia.
É possui interpretar o seu fazer fotográfico como uma prática do afeto, em conformidade com a perspectiva do pesquisador Marcus Vinícius de Oliveira (2026 ) uma arte forjada no “olhar de dentro”, o conceito do olhar que vem de quem pertence profundamente à cultura, à memória e ao cotidiano do povo negro brasileiro, que foi atribuído ao fotógrafo negro, Januário Garcia, no texto sobre sua trajetória “Januário Garcia, um fotógrafo da diáspora africana”, e dialoga com a construção da Lita Cerqueira. Formada entre as vivências e as ladeiras do Bairro de Santo Antônio, a artista nunca buscou o registro imparcial da cena, sempre optou pelo encontro. Anteriormente à foto existe a conversa, a convivência e a escuta; transformando o ato de fotografar em um gesto contínuo de troca afetuosa e preservação. Uma intimidade que contribui para que a foto flua como um fragmento da proximidade sincera e do olhar mútuo.
Seja ao retratar trabalhadores anônimos em suas rotinas ou grandes ícones da música brasileira em momentos de descanso, Lita traz no seu trabalho a ética do olhar cuidadoso. Nela, o respeito e a celebração da vida se sobrepõem ao mero documento, mostrando um ângulo interno que não apenas registra, mas acolhe e reafirma a dignidade de sua própria gente.
Sua trajetória na fotografia é marcada por seu trabalho autodidata, iniciando sua aprendizagem entre os anos 1969 e 1970, ainda na sua adolescência, em laboratórios de revelação e redações de imprensa, na busca por autonomia. Sua obra traz a afirmação de cidadania do povo negro, onde a subjetividade de quem está sendo retratado é preservada e destacada, este olhar característico de Lita se iniciou entre os contrastes das ladeiras de Salvador — sua cidade natal. A artista também trabalhou como atriz no cinema e no teatro, e, a partir de 1969, experiência que possibilitou a sua entrada na indústria cinematográfica, e na década de setenta, com o nascimento do seu filho, passou a dedicar-se de forma integral à fotografia. Foi nessa mesma época que ao ingressar na cultura hippie apreendeu as motivações do movimento e passou a experimentar novas formas de viver, o que consequentemente colaborou para posicioná-la na vanguarda das artistas negras brasileiras.

Lita Cerqueira em exposição com sua obra
Fotografia Analógica e Preto e Branco
A fotografia analógica e o uso do preto e branco (P&B) constituem a espinha dorsal da linguagem visual e da identidade artística da fotógrafa. Com uma trajetória profissional autônoma ao longo de cinquenta e dois anos de carreira, Lita permaneceu fiel aos processos fotográficos tradicionais e ao acervo em negativos, construindo um agrupamento material — estimado em mais de cinquenta mil imagens — focado na cultura negra, no cotidiano popular e em grandes nomes da música brasileira. Suas técnicas laborais na fotografia/estética foram influenciadas pela vivência autodidata no início da década de setenta, atuando diretamente em laboratórios de revelação e na produção de imagens para a imprensa. Essa experiência consolidou o seu domínio sobre o desenvolvimento químico do filme e a ampliação em papel.
A linguagem do preto e branco se estabelece como a marca registrada da sua produção. Em 1993, a fotógrafa consagrou essa estética ao lançar sua emblemática coleção de cartões-postais fotográficos em P&B; esses postais retratavam trabalhadores, crianças, arquitetura histórica e artistas da MPB, sendo vendidos com grande sucesso no Brasil e em países da Europa, como a França e a Alemanha. Quando perguntada, em entrevista para a revista Zum, intitulada de “O Meu Povo”, sobre sua relação com as cores na fotografia, Lita afirma:
“Foto colorida eu não gosto. Só gosto de foto colorida de pôr do sol e de frutas.”
A permanência de Lita Cerqueira no suporte analógico é associada à valorização da matéria física e da durabilidade da imagem. Em relatos sobre sua concepção técnica, a artista relembra diálogos com colegas de profissão sobre como “a verdadeira foto é o negativo em preto e branco”, devido à sua capacidade de preservação por até cento e cinquenta anos, diferentemente da volatilidade atribuída ao trabalho digital.
O acervo pessoal da artista preserva uma vasta coleção de suportes materiais, incluindo negativos organizados em envelopes manuscritos, cromos, filmes em Super 8 gravados na década de setenta (1970), e suas câmeras de trabalho. Esse conjunto analógico inédito vem sendo gradualmente digitalizado e apresentado em exposições retrospectivas.
Iconografia da MPB e a Cumplicidade dos Bastidores
A atuação de Lita Cerqueira no campo da fotografia musical se destaca por transcender o simples registro de cena, se consolidando como uma extensa documentação da memória afetiva da Música Popular Brasileira (MPB) e do movimento tropicalista. Inserida no ambiente de vanguarda e contracultura setentista, compartilhando vivências em Arembepe e no bairro de Santo Antônio, em Salvador, a fotógrafa construiu laços de profunda amizade e cumplicidade com nomes centrais da cultura musical nacional, como: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Elza Soares, Milton Nascimento, Chico Buarque e Cazuza.
Sua abordagem era/é uma contraposição à pose rígida dos retratos comerciais de estúdio, privilegiando a espontaneidade dos encontros em viagens, turnês, ensaios e momentos de intimidade doméstica. A produção de Lita representa a interação humana e a vida cotidiana dos artistas, valorizando a imersão na cena. E, entre as contribuições visuais e conceituais mais expressivas dessa fase, destaca-se a fotografia de contracapa do Disco Cores e Nomes (1982), de Caetano Veloso:

Fotografia de Contracapa do Disco Cores e Nomes, de Caetano Veloso (1982)
Foto: Lita Cerqueira
Produzida em 1982 para o álbum “Cores e Nomes” (gravadora Polygram), de Caetano Veloso, a célebre imagem da contracapa registra o cantor e compositor beijando afetuosamente seu pai, Seu Zezinho. A fotografia tornou-se um marco da iconografia da Música Popular Brasileira (MPB) ao desarmar a aura de distanciamento do ídolo pop, revelando a sensibilidade e o afeto de um gesto familiar e espontâneo.
Em vez de recorrer a poses estáticas ou à iluminação artificial de estúdio, Lita Cerqueira valeu-se de sua relação direta de amizade e convivência com os artistas da Tropicália e suas famílias para registrar um instante genuíno de intimidade. Essa imagem exemplifica o que o curador Diógenes Moura conceitua como uma “arte de encontros”, na qual a fotógrafa se coloca em posição de igualdade e cumplicidade com os sujeitos retratados. Ao capturar o carinho entre pai e filho de forma despretensiosa, a obra de Lita conecta o universo da criação musical às raízes afetivas e à dimensão humana do artista Caetano Veloso, afirmando a potência do registro analógico em preto e branco como documento histórico e poético da cultura brasileira. Lita quando questionada sobre o seu processo fotográfico em entrevista para o O Globo, evidenciou:
“Eu fico íntima não é só pra eu poder fotografar. Às vezes acontece de construir uma amizade. Em festa de rua, essas coisas, você não planeja, mas tem que chegar com calma se for fazer uma foto.”
Lita não só fotografa as pessoas em seus cotidianos e fazeres artísticos, como também torna-se próxima daqueles que retrata, por valorizar a relação entre fotógrafo e fotografado. Mas confessa, ainda em sua entrevista para a revista Zum, que seu objetivo na época que fotografava os músicos era namorá-los, e com isso, se aproximava deles e transformava essa relação em trabalho — já que muitas dessas fotografias descontraídas eram vendidas à imprensa. Lita afirma que sua aproximação dava-se como fã, e depois fazia amizade com os artistas, explicando que, a intimidade construída vem do amor pelo que faz. Ela não cria um planejamento para suas fotos, o que torna suas obras mais intimistas e valiosas, porém confessa nesta conversa, que às vezes gostaria de ter arquitetado.
“Eu era jovem, muito jovem, muito tiete, queria namorar os músicos, e foi assim que os fotografei. Aproveitava e vendia também para a imprensa.”
Destaque em Exposições e Coleções

“O Menino Marceneiro”, 1990.
Foto: Lita Cerqueira
O predomínio do preto e branco e a técnica química da imagem se fazem presentes nas suas principais criações, que circulam em diferentes exposições, como por exemplo, a exposição nomeada Cosmopolita (2008), que trouxe a retrospectiva das suas obras, no Centro Cultural dos Correios, em Salvador. E reuniu setenta fotografias em preto e branco produzidas no percurso de trinta e dois anos, de 1976 a 2008. Nesta exibição foram apresentadas os retratos do povo negro brasileiro, trabalhadores, crianças e episódios do cotidiano da Bahia e do Brasil; além de trazer imagens dos bastidores, turnês e momentos de convivência íntima com grandes nomes da MPB. Sem deixar de propagar os registros de manifestações culturais tradicionais, paisagens naturais e arquitetura urbana.
O predomínio da técnica pôde ser visualizado na mostra “O Povo Negro é o Meu Povo” (2024), que celebrou o seu legado de cinquenta anos na Caixa Cultural Salvador, e foi projetado a partir de obras em preto e branco, selecionadas do seu acervo, que possui mais de 50 mil imagens. A exposição com curadoria da Janaína Damaceno e coordenação da Lu Araújo foi estruturada em sete núcleos curatoriais que articulam ancestralidade, pertencimento e a vivência daqueles que pertencem à cultura negra no Brasil:
- “Andar com fé”: dedicado ao registro do sagrado afro-brasileiro.
- “Para o mundo ficar Odara”: focado na exaltação da beleza negra.
- “Zum zum zum”: reúne fotografias das rodas de capoeira.
- “Vou fazer minha folia”: voltado para as manifestações do carnaval.
- “Filhas de Oxum”: retrata a espiritualidade e a ancestralidade presente nas festas populares.
- “Doces Bárbaros”: reúne registros intimistas e de bastidores com ícones da MPB, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa.
- “Atraca que o Naná vem chegando”: dedicado a retratar a convivência e a energia dos grandes nomes da música popular brasileira.
A trajetória de Lita Cerqueira conta, ainda, com a exposição “Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar” (SESC Pompeia, 2026), que faz parte do projeto institucional Ofício, e celebra a linguagem da luz e a memória do laboratório analógico ao longo de cinco décadas de trajetória da artista. Organizada em torno do conceito do “Direito de Olhar” — no qual os sujeitos retratados encaram a câmera com altivez, autonomia e igualdade — e de um recorte temático sobre a infância. A mostra reuniu 47 fotografias, incluindo ampliações em formatos monumentais, raros registros em cores e itens de seu acervo pessoal, como câmeras antigas e envelopes de negativos com anotações escritas à mão. O grande destaque foi a exibição inédita de três filmes em Super 8 gravados por Lita na década de 1970, documentando festas e manifestações populares baianas, além de depoimentos em áudio com relatos da própria fotógrafa sobre as memórias de suas obras.
Fotografias analógicas da artista integram ainda acervos permanentes de instituições como o Museu Afro Brasil, em São Paulo, e o Instituto Antônio Carlos Jobim, no Rio de Janeiro.
Lita tem uma trajetória incrível na fotografia, ela nos agracia com sua arte vinda do “olhar de dentro”, que atravessa a concepção elaborada pelo pesquisador Oliveira (2026), com a visão atenta para a representação digna do povo negro, mantendo sempre um rigor estético e ética humana. Lita se destaca por permanecer fiel à sua identidade, da fotografia em preto e branco, mesmo em meio à aceleração e popularidade das tecnologias digitais, dando ênfase à capacidade desse registro atravessar gerações.
Essa fidelidade artesanal à matéria conecta-se diretamente ao respeito e ao afeto com que a fotógrafa acolhe cada pessoa diante da sua câmera, recusando a captura ligeira ou a observação distanciada. A fotógrafa estabelece antes do clique, a conversa, a convivência e o consentimento, preocupando-se com a integridade, a história e a dignidade de seus retratados.
É nessa fusão entre a força poética do p&b e uma profunda generosidade humana que Lita Cerqueira se reafirma como uma das mais importantes guardiãs da memória e da alma brasileira através da prática fotográfica.
Referências Bibliográficas
- CERQUEIRA, Lita. Lita Cerqueira. Blog pessoal e acervo cronológico da artista. Disponível em: http://litacerqueira.blogspot.com/.
- CERQUEIRA, Lita. Lita Cerqueira: Mulheres do Meu Tempo. Website oficial da artista. Disponível em: https://litacerqueira.com/.
- CERQUEIRA, Lita. Retratos. Website oficial da artista. Disponível em: https://litacerqueira.com/retratos/.
- CERQUEIRA, Lita. Sobre. Website oficial da artista. Disponível em: https://litacerqueira.com/sobre/.
- LITA CERQUEIRA. In: PROJETO AFRO. Mapeamento e difusão de artistas negros e afrodescendentes. São Paulo, 2025. Disponível em: https://projetoafro.com/artista/lita-cerqueira/.
- LITA CERQUEIRA. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2026. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lita_Cerqueira.
- LITA Cerqueira chega ao Sesc Pompeia em nova edição do projeto Ofício. Sesc São Paulo, São Paulo, 11 abr. 2026. Disponível em: https://www.sescsp.org.br/.
- NOBRE, Ana Paula. Lita Cerqueira celebra 50 anos de fotografia na CAIXA Cultural. Portal Soteropreta: O portal Afro Cultural de Salvador, Salvador, 16 out. 2024. Disponível em: https://portalsoteropreta.com.br/.
- HIRSZMAN, Maria; CERQUEIRA, Lita. O meu povo. Revista ZUM, São Paulo, ed. 20, 3 ago. 2021. Disponível em: https://revistazum.com.br/revista-zum-20/o-meu-povo/.
- MACHADO, Lara. Primeira fotógrafa negra profissional do Brasil, Lita Cerqueira celebra 50 anos de trabalho com mostra em Salvador. O Globo, Rio de Janeiro, 20 nov. 2024. Disponível em: https://oglobo.globo.com/ela/noticia/2024/11/20/primeira-fotografa-negra-profissional-do-brasil-lita-cerqueira-celebra-50-anos-de-trabalho-com-mostra-em-salvador.ghtml.
- OLIVEIRA, Marcus Vinicius de. Januário Garcia, um fotógrafo da diáspora africana. Periódicos FGV, Rio de Janeiro, 20 jul. 2026. Disponível em: https://periodicos.fgv.br/reh/issue/view/5479.
