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A beleza da mulher negra na fotografia de Walter Firmo

Walter Firmo

Walter Firmo Guimarães da Silva é um fotógrafo negro brasileiro reconhecido por imagens de mestres da música brasileira — como Dona Ivone Lara, Cartola e Clementina de Jesus — e por retratar por um olhar diferente e mais humano e amoroso a população negra e periférica do país. Conhecido como “mestre da cor”, o fotógrafo nasceu e cresceu no subúrbio carioca, e desde a infância almejava ingressar no campo da fotografia. 

Walter iniciou sua carreira em 1955, quando ingressou no jornal Última Hora, como repórter fotográfico. Nessa época, Firmo já havia realizado um curso de fotografia na Associação Brasileira de Arte Fotográfica (ABAF) com uma câmera Rolleiflex que seu pai lhe deu de presente. Anos mais tarde, em 1960, ele começou a trabalhar no Jornal do Brasil, onde fez a cobertura da visita do presidente dos Estados Unidos Dwight Eisenhower ao Brasil. No Jornal do Brasil, Firmo publicou uma série de cinco reportagens com o título “Cem dias na Amazônia de ninguém”, que o fez conquistar o prêmio Esso de Reportagem em 1963. 

Em 1966, depois de sair do Jornal do Brasil e de passar um curto período na revista Realidade, Firmo passou a fazer parte da Editora Bloch, responsável por publicar a revista Manchete. Durante seu período nesta editora, Walter ficou seis meses em Nova York, em 1967, onde conheceu o bairro Harlem — conhecido por ser um grande centro cultural afro-americano — e descobriu o jazz. Foi no encontro com essa cultura negra norte-americana que Walter Firmo decidiu contribuir, por meio da sua fotografia, com a formação de uma consciência negra no Brasil.

O contato com o trabalho do fotógrafo norte-americano David Drew Zingg sobre as regiões do Brasil para a revista Manchete, fez com que Firmo “descobrisse a cor” e passasse a incorporar esse recurso na sua fotografia, se tornando o “mestre da cor”. Para Walter Firmo, o trabalho com a cor traz uma outra dimensão para a fotografia. Em entrevista realizada para a Revista Mais 60 – Estudos sobre o envelhecimento em 2024, o fotógrafo afirma:

“Por que virei um colorista? Porque sou apaixonado pela cor e a paixão se regula ou se desregula na intensidade, na força da paixão, na cor. E a cor tem um semblante para mim. É um tal de respostas dessas atitudes, onde não se pensa muito, mas se sente.”

Em 1971, Walter começou sua pesquisa sobre o folclore brasileiro, no mesmo ano em que começou a trabalhar para indústria fonográfica — setor envolvido no processamento das músicas gravadas, desde a sua produção até a comercialização —, fotografando capas de álbuns para artistas como Tim Maia, Djavan e Fafá de Belém. Dois anos mais tarde, Walter Firmo criou a agência fotográfica Câmera Três, junto com seus colegas da Manchete Sebastião Barbosa e Claus Meyer, a qual encerrou suas atividades anos depois.

Walter Firmo foi premiado no Concurso Internacional de Fotografia da Nikon, prêmio que ganhou sete vezes entre 1973 e 1982. Entre as décadas de 1970 e 1980, Firmo trabalhou nas revistas Veja Rio, Tênis Esporte — onde cobriu eventos esportivos no Equador, Peru, Bolívia, Portugal e França — e IstoÉ, além de ter atuado como freelancer nesse período. Em 1982, ele lançou uma coleção de 24 cartões postais em preto e branco intitulada “Os Brasileiros” junto com os fotógrafos Cafi, Pedro de Moraes e Miguel Rio Branco.

No ano seguinte, em 1983, o Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro realizou a exposição “Ensaio no Tempo”, uma retrospectiva de 25 anos de carreira de Walter Firmo que exibiu 200 fotografias em preto e branco do fotógrafo. Nos anos 90, Walter participou de várias exposições coletivas e individuais, nacionais e internacionais, além de ter sido professor em diferentes instituições. Em 1994, ele foi reintegrado à Fundação Nacional das Artes (Funarte), e passou a atuar na nova Área de Fotografia da instituição.

Ao longo de sua carreira, o fotógrafo ganhou diversos prêmios e participou de diferentes exposições, se tornando uma referência no mundo da fotografia. Walter publicou diversos livros como “Amazônia luz e reflexão”, de 1995, e “Rio de Janeiro, cores e sentimentos”, de 2002. Desde de 2018, o Instituto Moreira Salles (IMS) abriga cerca de 145 mil fotografias de Walter Firmo que vêm sendo digitalizadas e catalogadas. Em 2022, o IMS Paulista inaugurou a exposição “Walter Firmo: no verbo do silêncio a síntese do grito” em comemoração aos setenta anos de carreira do fotógrafo.

Walter Firmo é um importante fotógrafo para o campo da fotografia no Brasil e no mundo. Amplamente reconhecido por seu trabalho com a cor, a fotografia de Walter trouxe um novo olhar sobre a população negra brasileira em um período em que as imagens dominantes buscavam reforçar a posição de inferioridade a qual essa população era submetida.

A beleza da mulher negra

A representação da mulher negra nas mídias foi — e em sua maioria, ainda é — uma representação estereotipada e que reforçava os ideais do patriarcado branco. Essas imagens, reproduzidas na TV, no cinema, nos livros, nas revistas etc., e produzidas, em sua maioria, por homens brancos, fazem com que o racismo e o sexismo pareçam naturais e inevitáveis, de modo que são uma ferramenta de poder e dominação. Seja na imagem da empregada doméstica impossível de ser desejada e que cuida da família branca melhor do que da sua, seja na imagem da mulher exótica, sensual e sexualmente disponível, ou em tantas outras representações, essas imagens das mulheres negras são imagens de controle e tentam justificar e naturalizar as opressões e condições impostas a elas. 

Além dessas representações, a mulher negra muitas vezes é uma presença ausente na fotografia dominante, servindo, por vezes, como um contraste à mulher branca — vista como bonita, desejável e pura — ou como um objeto sexual para satisfazer o prazer masculino. Essas representações são dolorosas para as mulheres negras espectadoras, que, muitas vezes, escolhem não olhar para essas imagens e negá-las, como forma de resistência.

Walter Firmo atua na contramão dessas ideias. O fotógrafo traz em suas fotografias mulheres negras ocupando a posição central das imagens, representando-as com integridade, dignidade e protagonismo, combatendo o lugar de invisibilidade ao qual foram submetidas. Na fotografia de Firmo, essas mulheres não são somente o centro das imagens: elas são glorificadas e colocadas como protagonistas e donas de sua própria trajetória, em contraposição à posição de subalternidade e dominação. 

Na fotografia da sambista Dona Ivone Lara, Firmo coloca a cantora em um lugar de elevação, glorificação e protagonismo. O fotógrafo transforma Dona Ivone Lara no sujeito da imagem, retratando-a de forma a exaltar sua beleza e sua arte. Ao analisarmos a caracterização de Dona Ivone Lara na imagem, é possível traçar um paralelo entre as roupas utilizadas pela cantora e a caracterização das mammies — a mulher negra assexuada e invisível que é empregada doméstica na casa da família branca — presentes nas imagens disseminadas na época.

Nesse aspecto, observamos como Walter subverte essa ideia, pois ele enaltece, valoriza, glorifica e protagoniza a cantora, mostrando para todos os espectadores da imagem a beleza da mulher negra. Além disso, vale ressaltar que o fotógrafo não se utiliza da sexualização dessa mulher para mudar esse olhar sobre ela, outra representação comum ao período. As cores presentes na fotografia, o véu que envolve a cantora e seu posicionamento no centro e no primeiro plano da imagem contribuem  para essa nova forma de olhar para essa mulher, a qual deve ser exaltada e não invisibilizada.

Dona Ivone Lara. Rio de Janeiro, 1992. Walter Firmo.

Na fotografia de Clementina de Jesus, esse aspecto de elevação da mulher negra à um lugar santificado e sagrado ganha ainda mais força quando observamos a presença da imagem de Nossa Senhora da Glória na penteadeira da cantora. A composição da imagem constrói um paralelo entre as duas, pois enquanto Maria, na concepção cristã, seria a rainha dos céus, Clementina é a rainha da terra. Por meio da conexão e da comunicação entre as duas personagens da imagem, Firmo constrói, através da imagem da cantora, a exaltação da mulher negra, que é vista com reverência e santificação. Janaína Damasceno, pesquisadora e curadora assistente da exposição “Walter Firmo: no verbo do silêncio a síntese do grito”, afirma em seu texto “Amar a negritude” que:

“Com efeito marmorizado e com um grande espelho, vemos em cima do móvel uma garrafa de álcool, algodão, papéis, perfumes, santinhos, uma escova para cabelos crespos, o reflexo da cama por arrumar (‘a bagunça que é bem do nosso jeitinho’, como me disse Firmo); ao centro e em destaque, Nossa Senhora da Glória, sua santa de devoção, e à direita dela, o reflexo de Clementina, que se olha no espelho e sorri. Sua penteadeira transmuta-se em altar.” Ouso dizer, que a penteadeira não é um altar somente para Nossa Senhora, mas também para Clementina de Jesus.

A imagem tem um detalhe marcante e simbólico: o olhar de Clementina para si no espelho. Esse olhar sorridente da cantora para si no espelho mostra uma posição de se opor à ideia que as imagens sobre mulheres negras produzidas pelas mídias de massa da época buscavam transmitir. Clementina não olha para si com ódio ou com a perspectiva de aceitar uma posição de dominação: ela enxerga a beleza em sua preta cor de pele. Assim, o olhar feliz e amoroso de Clementina de Jesus para si naquele espelho é um ato político de autorreconhecimento, e, ao capturar esse momento, Walter Firmo apresenta para o mundo uma outra dimensão das fotografias sobre as mulheres negras.

Clementina de Jesus em seu apartamento no bairro Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro, Julho de 1979. Walter Firmo.

A fotografia de Walter Firmo traz um outro olhar sobre as pessoas negras, nadando contra a corrente das imagens disseminadas pela mídia dominante da época, entre a década de setenta e oitenta, em que as fotografias apresentadas acima foram realizadas. Atualmente, percebemos que outros olhares sobre a população negra e sobre as mulheres negras estão presentes nas mídias, e essas novas representações são cada vez mais propagadas com a velocidade que a informação circula devido às vantagens decorrentes da internet e das redes sociais. Diversos fotógrafos retratam as mulheres negras sob uma nova perspectiva, alterando as posições estereotipadas, subalternizadas e de invisibilidade, nas quais elas eram colocadas, por um lugar de protagonismo. Além disso, essas novas imagens exibem aos espectadores de todo o mundo outras visões sobre essas mulheres e sobre a população negra, uma nova narrativa que comunica muito mais sobre esses indivíduos do que o que vinha sendo retratado.

Apesar disso, ainda observamos muitas imagens prejudiciais das mulheres — e das pessoas — negras que reforçam o patriarcado branco e naturalizam a opressão interseccional que elas sofrem. A permanência de representações desse tipo, reforçam a importância e a necessidade de existirem fotógrafos como Walter Firmo, que alterem a perspectiva, tenham novos olhares e apresentem ao mundo uma perspectiva de valorização, exaltação e glorificação das mulheres negras. As mulheres negras não devem se ver em imagens em que são invisibilizadas, sexualizadas, subalternizadas, humilhadas. Elas devem se ver sendo exaltadas e glorificadas, assim como Clementina de Jesus foi elevada à posição de Rainha Quelé — a rainha da/na terra — por Walter Firmo.

Referências bibliográficas

DONA Ivone Lara. In: IMS. Rio de Janeiro.  Disponível em:  https://ims.com.br/titular-colecao/walter-firmo/. Acesso em: 01 de julho de 2026.

BELÉM, Alexandre. Clementina de Jesus por Walter Firmo. Receita de Samba. Disponível em: https://receitadesamba.com.br/clementina-de-jesus-por-walter-firmo/. Acesso em: 01 de julho de 2026.

RUBIN, Nani. Walter Firmo – Cronologia. IMS, 2020. Disponível em: https://ims.com.br/2020/04/01/walter-firmo-cronologia/. Acesso em: 01 de julho de 2026.

Walter Firmo. MAM Rio. Disponível em: https://mam.rio/artistas/walter-firmo/. Acesso em: 01 de julho de 2026.

Walter Firmo. Testemunha Ocular. Disponível em: https://testemunhaocular.ims.com.br/fotografo-ims/walter-firmo/. Acesso em: 9 de julho de 2026.

FIRMO, Walter. “A paixão se regula na cor” – Entrevista com Walter Firmo. Revista Mais 60 – Estudos sobre envelhecimento. São Paulo, 09 de agosto de 2024.  Disponível em: https://www.sescsp.org.br/editorial/entrevista-com-walter-firmo/. Acesso em: 15 de julho de 2026.

DAMASCENO, Janaína. Amar a negritude. In: BURGI, Sérgio (Org.) Walter Firmo: no verbo do silêncio a síntese do grito. IMS Editora, 2022. p. 16-23.

COLLINS, Patrícia Hill. Mammies, matriarcas e outras imagens de controle. In:  Pensamento Feminista Negro. Conhecimento, Consciência e a Política do Empoderamento. Boitempo Editorial, 2019. p. 135-178.

HOOKS, Bell. O olhar opositor: mulheres negras espectadoras. In: Olhares negros: raça e representação. Editora Elefante, 2019. p. 173-193.