Amanda Baroni é moradora da Maré e cria do Morro do Timbau. Fotógrafa popular e jornalista, ela expressa o seu pensamento crítico comunicando suas ideias não só através das palavras em suas matérias, mas também por meio das visualidades que constrói em suas fotografias.
Formada em Jornalismo pela UniCarioca e estudante de cinema na Escola Darcy Ribeiro, ela integrou a turma do 1° Laboratório de Jornalismo do Maré de Notícias e a oficina Lanterna Mágica, realizada pelo Arquivo Nacional, onde produziu o curta “A Maré tá pra peixe?” (2019). Amanda também é autora e já publicou dois títulos: o “Guia Antiassédio no Breaking” (2020), que auxilia as mulheres do hip-hop a identificarem casos de assédio no breaking e as orientam sobre o que pode ser feito nessas situações, e “Lucas, o Abacaxi” (2023), que traz ensinamentos para as crianças, como a necessidade de ter paciência nos processos da vida. No momento, é comunicadora free-lancer do RioOnWatch e da Imprensa Brasília, onde escreve matérias voltadas aos temas de energia, sustentabilidade, favelas e direitos humanos.
Em paralelo, Amanda se formou na turma de 2012 da Escola de Fotografia Popular (EFP), sendo residente do Laboratório de Imagens em 2021, onde fez uma releitura do acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles e produziu o curta “Cíclica”. No entanto, sua história com a fotografia não foi iniciada no curso: ela é fruto da inspiração em sua mãe, que fotografava tudo à sua volta durante a infância da fotógrafa. Assim, ela observou a prática fotográfica e a vontade de registrar o cotidiano em sua família, desenvolvendo interesse e contato com a câmera desde nova. Dessa forma, o interesse se tornou em um hobby e, mais tarde, em profissão a partir da formação na EFP.
Mas não apenas o interesse herdado de sua mãe impactou na jornada de Amanda como fotógrafa, como também a sua história com o breaking tem uma influência marcante em seu acervo fotográfico. Sendo uma B.girl — break-girl, ou seja, uma mulher que pratica breakdance — desde 2007, ela une suas duas paixões e fotografa eventos de cultura urbana no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Em sua exposição Breakingrafia, Amanda expõe algumas das mais de 22.000 fotografias de 50 eventos diferentes que registrou — fotografias que a tornaram semifinalista no concurso fotográfico de Hip Hop da Revista Break SP. Assim, registrando temas como memória, igualdade de gênero e favela, o cenário de seu acervo é fortemente marcado pela dança, sobretudo pelo hip-hop, e outras expressões da cultura urbana.
Para além do registro de eventos de dança que antes ela participava como B.girl, Amanda também encontrou na fotografia uma possibilidade de criar arte e comunicar as suas ideias através dela. Em sua participação na web série documental Territórios, produzida pela Deserto Filmes, a fotógrafa explica a sua relação com a fotografia e como ela a incentivou a se tornar uma comunicadora. Ela afirma:
“Eu achei que podia inventar coisas também artísticas e compartilhar com outras pessoas coisas que estavam na minha cabeça e eu não sabia como externalizar. E aí eu comecei a ver a foto como essa ferramenta que pode gerar também um pouco de fantasia.
Por que não gerar uma abordagem positiva da comunidade e tornar ela o palco de coisas bonitas?”
Elementos da Minha Natureza
Nesse sentido, entre seus trabalhos artísticos que seguem essa abordagem, destaca-se o ensaio fotográfico “Elementos da Minha Natureza”, que foi exposto no Galpão Bela Maré e representou a sua participação na Exposição Coletiva PASSEATA, realizada com a curadoria de Isabel Sanson Portella, na Galeria Simone Cadinelli Arte Contemporânea, e a tornou semifinalista no concurso fotográfico do III Festival Mostrar’t Gandia, da Espanha. Composta por fotografias que representam cada um dos quatro elementos — fogo, água, terra e ar —, Amanda explorou a relação entre eles e os estigmas associados às favelas, unindo a crítica à cultura do hip-hop em diferentes territórios periféricos. Para criar essa visualidade, os protagonistas das fotografias dessa série são Felipe e Thamires Cândida, Luana Luara, Agatha Alves e Hugo Oliveira, que são dançarinos profissionais que cresceram nas favelas.
Essa série fotográfica tem sua concepção centrada na desmistificação da favela e na exposição de sua capacidade criativa e cultural, o que é feito por meio da dualidade de significados que os quatro elementos da natureza podem assumir: fundamentos básicos para a existência da vida ou agentes da morte. Enquanto a Teoria dos Quatro Elementos, proposta por Empédocles, diz que tudo que há de conhecido é formado por essas raízes, a ação deles também pode ser perigosa e, até mesmo, mortal quando sua presença é desmedida, descontrolada — quando se manifestam na forma de desastres naturais. Desmoronamento de terras, tsunamis, fortes tempestades, incêndios florestais, tornados: são diversas as expressões da natureza que são vistas como perigosas.
De forma admirável, Amanda escolhe explorar essa dualidade para criar novas perspectivas que rompam com os estigmas associados às favelas. Ao incorporar esse olhar às suas lentes, ela busca questionar a cultura da violência e do medo propagada pela mídia hegemônica, que coloca as favelas como como territórios marcados pela morte e as suas vivências como não civilizadas — ou ainda, selvagens. Com esse objetivo, ela apresenta a estética e a cultura urbana periférica com uma perspectiva positiva, colocando em foco talentos da periferia e a manifestação da sua arte e dos elementos naturais associados.
Desse modo, a fotógrafa, em sua posição como moradora da Maré e B.girl, mostra ao mundo externo à favela a realidade na qual ela está inserida e que conhece profundamente, a partir do olhar desenvolvido por essa experiência, como pertencente e não como espectadora. Amanda demonstra não se reconhecer nas representações do “outro” — produzidas pela grande mídia e que resumem a favela à violência e à ausência de cultura — ao retratar espaços dos quais ela é íntima busca questionar essa representação registrando o próprio olhar para compartilhar uma nova perspectiva sobre a história da qual faz parte. Tal conduta se aproxima do conceito de “olhar de dentro” observado por Oliveira (2006) na prática fotográfica de Januário Garcia, que relaciona o pertencimento do fotógrafo a um contexto para estimular um novo olhar sobre ele, visto que, a identificação do fotógrafo com o fotografado permite a aproximação da história do sujeito fotografado com o que é capturado pelas lentes da câmera. Assim, a fotografia é usada como meio para contar a própria história e combater visões estereotipadas e preconceituosas.

Nessa fotografia da série “Elementos da Natureza”, que representa a categoria do “Fogo”, Amanda registra a dançarina Agatha Alves, do Dance Hall, no Parque União. Em um ambiente com chão não cimentado e murado com placas de ferro, a dançarina foi capturada em uma pose comum entre danças de hip-hop, com movimento forte e que transmite poder e intensidade à imagem. Vestida com roupas características da estética da dança urbana e com o seu cabelo natural em um penteado que o destaca, a fotografia impacta o espectador pelo empoderamento feminino e a força vívida que expressa. No registro acima, o fogo ilumina o ambiente para que Agatha possa dançar, mas além disso, a ilumina. A luminosidade do fogo faz o seu corpo brilhar, cheio de vida, e a dançarina preenche a fotografia com a sua presença. E mesmo rodeada pelo fogo, Agatha sorri transmitindo um sentimento divertido, não demonstra medo, mas sim, vivacidade ao manifestar sua arte com uma postura protagonista. Ela demonstra ter orgulho de ser quem é, de onde veio, da cultura que cresceu e do que a sua forte presença representa.
Dessa forma, uma nova perspectiva à representação do fogo foi proposta ao espectador, valorizando a estética e a cultura urbana das favelas. Por meio dessa série fotográfica, Amanda exporta a vivência e a cultura da favela para além de suas fronteiras territoriais, mostrando o outro lado dos elementos naturais e contrapondo o histórico deturpado das mídias tradicionais, em que colocam a favela como um território tomado pelo caos e pela morte — assim como os elementos naturais, quando se manifestam em forças desmedidas, que precisam ser controlados e ter a sua presença contida, as favelas são territórios submetidos a processos de aniquilamento.
Com isso, diferente da violência associada às favelas por meio de imagens de armas de fogo, do “fogo cruzado” e demais episódios violentos explorados pela grande mídia, Amanda dá luz ao fogo que empodera e está presente nas vivências pouco exploradas da favela. Para além dos estigmas, “Elementos da Minha Natureza” mostra que os corpos favelados são agentes de vida.
Referências bibliográficas:
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BARONI, Amanda. Elementos da minha natureza – Mulheres Luz. Disponível em: https://mulheresluz.com.br/ensaios/elementos-da-minha-natureza/
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CASTRO, Maria Cecília Rocha de. Educação popular na favela da Maré: fotografia e formação humanística. 2021. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, 2021. Disponível em: https://dissertacao.estacio.br/educacao/2021/4687657_maria-cec%C3%ADlia-rocha-de-castro-2021.pdf
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MARTINS, Roberto de Andrade. Os quatro elementos de Empédocles. Grupo de História, Teoria e Ensino de Ciências (GHTC), Universidade de São Paulo, [s. d.]. Disponível em: https://www.ghtc.usp.br/Universo/pag40.html
OLIVEIRA, Marcus Vinicius de. Januário Garcia, um fotógrafo da diáspora africana. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 39, n. 88, e20260804, 2026. DOI: https://doi.org/10.1590/S2178-149420260804
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TERRITÓRIOS 2a TEMPORADA. Ep. 01: AMANDA BARONI. YouTube, , 10 jul. 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Pbv30WZVxLI
